Resumo Histórico do Juca Pato / Caio Porfírio Carneiro

No segundo semestre de 1962, em reunião de diretoria da União Brasileira de Escritores, o 2º vice-presidente, escritor Marcos Rey, sugeriu que se criasse um prêmio ao melhor livro publicado naquele mesmo ano, e que, no conceito da maioria dos eleitores, fosse significativo para as letras e a cultura brasileira. O autor receberia o título de Intelectual do Ano. Qualquer escritor, da área literária ou não, poderia se inscrever. A votação, de alcance nacional, seria aberta, para que a disputa merecesse ampla divulgação. Seria concurso anual, premiando obra do ano anterior. Como o ano de 1962 estava no fim, o primeiro concurso seria para obra desse mesmo ano. A diretoria aprovou prontamente a idéia.
 
Pensou-se em prêmio em dinheiro. Mas teria que ser importância alta. E quem bancaria isto todos os anos? Foi quando Mário Donato, irmão do Marcos Rey, presidente da UBE na gestão anterior, lembrou-se de um troféu, que poderia ser tirado da figura do Juca Pato, personagem criada pelo jornalista Lélis Vieira e imortalizada pelo ilustrador e cartunista Belmonte (Benedito Carneiro Bastos Barreto) (1896-1947).
 
O Juca Pato era figura inteligente, careca, mal vestido num fraque, sempre se defendendo dos apertos, tal qual a maioria dos escritores que ganham pouco e lutam bastante para publicar seus livros.

As charges, bem-humoradas, eram publicadas na então Folha da Manhã e os leitores vibravam com as saídas do Juca Pato. Idéia maravilhosa. Então a escritora Helena Silveira, (exercendo a presidência da UBE no lugar de Mário da Silva Brito, licenciado), responsável pela página social da Folha de S. Paulo, procurou o diretor do jornal, Otávio Frias de Oliveira, e conseguiu dele o patrocínio do concurso e a doação da estatueta, de bronze, espelhando exatamente a figura do Juca Pato. E o concurso se iniciou a 8 de janeiro de 1963, encerrando-se no dia 31 do mesmo mês.
 
Foi um acontecimento memorável e meio confuso. Sem um regulamento, estabelecendo normas mais definidas para a votação, qualquer escritor votava em quem quisesse. Muitos autores receberam apenas um ou dois votos. Mas duas figuras galvanizaram a preferência dos eleitores: Santiago Dantas, ministro das relações exteriores do Governo João Goulart, e o romancista Afonso Schmidt.

Helena Silveira era ardorosa defensora do primeiro. Foi uma disputa tão acirrada que o sócio da capital, obrigado a votar na sede da entidade, enfrentava uma cabala muito grande, logo na entrada do prédio. Acabou vencendo, por estreita maioria, Santiago Dantas.
 
Outra discussão calorosa se deu para a realização da festa de entrega do troféu. Se na sede da UBE ou no auditório da Folha de S. Paulo. Optou-se, finalmente, pelo auditório da Folha, bem maior e bem mais confortável.

Santiago Dantas veio de Brasília e a festa foi um sucesso.

Mas havia os que não acreditavam na duração daquele prêmio. As discussões eram muitas, o sistema de votação com muitas falhas. Dava muito trabalho. Aquilo não podia ir longe, apesar da cobertura excelente da Folha.

Já no ano seguinte, porém, os ânimos não se exaltaram tanto. E na entrega do terceiro troféu, a Alceu Amoroso Lima (Tristão de Ataíde), a figura heróica do Juca Pato mostrou que veio para ficar.

Enfrentando o golpe militar, Alceu fez um discurso vibrante, inflamado, em defesa da liberdade de imprensa e de criação, que o auditório da Folha, lotado, “quase veio abaixo” com os aplausos seguidos.

E o Juca Pato seguiu em frente. Ampliou-se o colégio eleitoral, que não parava de crescer. As diretorias da UBE mudaram, sucessivamente, o regulamento de votação, que as falhas sempre apareciam.

Em 1976, por sugestão do escritor Aluysio Mendonça Sampaio, então 2º vice-presidente da entidade, afixou-se, na entrada da sede, todo o mapa de nomes e representantes de entidades culturais que tinham direito de votar. Isto melhorou muito. Mas as falhas persistiam, particularmente no setor dos escritores não filiados que desejassem votar. Em 1988, finalmente, Cláudio Willer, na presidência, realizou uma assembléia geral dos associados, definindo as normas do concurso. Mas, já agora, com os novos tempos eletrônicos, a diretoria da UBE, Levi Bucalem Ferrari na presidência, tomou providências para se fazer outra revisão geral no  regulamento do concurso.
 
Instantes memoráveis viveu o Juca Pato. Impossível citá-los, tantos foram eles. Destacamos, apenas, a festa de entrega da estatueta a poetisa Cora Coralina, primeira intelectual mulher a receber o prêmio (1983), que contou como batalhadora para a sua eleição com a poetisa Dalila Teles Veras. Depois da festa foi servido, na sede da UBE, quase um jantar, com quitutes e bebidas variadas da cozinha goiana, que de Goiás era Cora Coralina.

Mas nada superou a homenagem de entrega do troféu a Juscelino Kubitschek de Oliveira (1975). No auge do regime militar, o expresidente, cassado nos seus direitos políticos, foi recebido como um estadista no exercício do mandato. A Folha ofereceu-lhe um almoço, ele gravou um longo depoimento para o MISE (Museu da Imagem e Som do Escritor, da UBE), e, à noite, na sede da UBE, onde se realizou a entrega do prêmio, houve uma verdadeira “invasão” de escritores e admiradores do ex-presidente. A Rua 24 de Maio ficou tomada de gente e os prédios em frente iluminados.

O Juca Pato, a maior láurea do País conferida a um escritor nacional, continua o seu curso, em pandas velas. Houve apenas uma interrupção de dois anos de entrega do prêmio (1993-1994), devido ao despejo da entidade da sua sede, surgindo, com isto, a inviabilidade para a realização do concurso. Mas, mesmo assim, o espírito do Juca Pato se fez presente na bela homenagem que Fábio Lucas, na presidência, organizou, com outras entidades culturais, para homenagear o historiador e crítico teatral Décio de Almeida Prado, que tinha tudo para receber o troféu.

A homenagem aconteceu em 18 de novembro de 1994, no auditório da Biblioteca Mário de Andrade. A Scortecci Editora reuniu, num belo livreto, todos os discursos saudando Décio de Almeida Prado, distribuído gratuitamente.

Retornou, inteiro e irreverente, o Juca Pato, em 1995. A láurea foi entregue nesse ano a Marcos Rey, idealizador do concurso. Nada melhor para definir e sintetizar a importância desse prêmio do que as palavras de Afonso Arinos de Melo Franco, vencedor do concurso em 1973: “O concurso Intelectual do Ano deixou-me muito satisfeito e perplexo. É o único concurso literário do País, com disputa democrática amplamente aberta, e os intelectuais votantes, embora se dividam nas preferências, nunca se dividiram no resultado, aplaudindo sempre o vencedor.”
 
O Juca Pato, pela sua importância e tradição nacional, merecerá, quando atingir os cinqüenta anos de existência — e está próximo —, um livro, contando a história pormenorizada dessa personagem, que saiu das páginas do jornal, transformouse em troféu para consagrar intelectuais, e jamais pensou em morrer...

A seguir, a relação completa de todos os vencedores do Intelectual do Ano, ano por ano, com os respectivos livros premiados e votos recebidos.  Em alguns anos apenas um candidato foi inscrito para o concurso. Como prevê o regulamento, não havendo disputa o candidato único é proclamado vencedor.

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